Morrer e ressuscitar durante uma corrida

Durante uma prova de longa distância você leva seu corpo ao limite e para sobreviver a este embate você precisa ter, na força mental, uma aliada.

Depois de meses de preparação, incluindo treinos e planejamento alimentar, você deve ir para a prova certo de que está preparado, não há lugar para dúvidas ou insegurança. Além disso, é preciso estudar o percurso, o clima e, o mais importante, conhecer os seus pontos fortes e fracos.

Mesmo com tudo isso as dificuldades virão, você vai sentir medo, dor, sono, cansaço, sem falar das surpresas climáticas como horas debaixo de chuva, lama, frio, calor intenso etc.

Diferente do que ocorre com a maioria, a “morte” costuma chegar para mim na primeira parte das ultramaratonas, ou seja, a causa não é física. Na BR 135 e na Badwater tive inícios muito ruins, me esforçava e não rendia, sofri muito. Acredito que o impacto da largada e da concretização de algo que foi por meses um plano me abala emocionalmente.

Nunca tive dores de lesão ou cãibras incapacitantes. Senti sim, dor muscular generalizada, quando o corpo não reage e você reduz muito o ritmo, isso na segunda metade das provas, quando o corpo está desidratado e em desequilíbrio total. Nestes casos, foram “mortes” por razões físicas.

Para evitar os momentos obscuros, divido a prova em várias etapas e vou concluindo uma de cada vez, assim quando o corpo começa a “morrer”, distraio minha mente visualizando o próximo ponto a chegar. Lá, me recompenso com uma comidinha deliciosa, isso me “ressuscita” de uma forma incrível.

Ao continuar, você verá que o corpo continua cansado (não se enganam os músculos). Durante o percurso você ainda sentirá euforia, depressão, terá dúvidas, mas a força mental e a tolerância à dor podem te fazer sobreviver a estas mudanças de humor.

A introspecção me ajuda muito nos momentos de “ressurreição”, penso e analiso as razões que me levaram estar ali e, quando a coisa fica muito feia, penso nos amigos e familiares. Pego sem pedir um pouco da energia da natureza ao redor. Ajuda também!

Li um relato do atleta americano Dean Karnazes, em que ele diz que numa ultramaratona corremos parte com as pernas e parte com a mente. Eu incluiria o coração.

Não é tarefa fácil, mas quando se avista o local da chegada, o sentimento de realização é incomensurável. Após morrer e ressuscitar diversas vezes, é isso o que me leva a fazer uma nova inscrição.

Estela Vaz
Ultramaratonista amadora
2019 – finisher Badwater 135 – EUA
2019 – finisher BR 135 – Brasil
2018, 2017, 2016 – finisher UAI Ultramaratona dos Anjos Internacional – Brasil
Contato: estela-vaz@hotmail.com 
instagram @vaz.estela

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4 Comentários

  1. Parabéns Estela.
    Para quem a vida toda só correu 15 km ( no max) fica difícil imaginar esses desafios.
    Você parece tão frágil e de repente vira uma gigante.
    Escreva muito mostrando suas conquistas.
    As pessoas vivem deprimidas necessitando do seu exemplo.
    Abração menina.

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